Em 2008 escrevi este artigo como trabalho de conclusão do meu curso de Letras."Quando a pessoa do próximo deixa de nos comover, só aí pode começar a comédia. E começa com o que se poderia chamar de enrijecimento para a vida social. É cômico a personagem que segue automaticamente seu caminho sem se preocupar em entrar em contato com os outros. (...) O riso estará lá para corrigir sua distração e para tirá-la do seu sonho."
Henri Bergson
INTRODUÇÃOO riso infantil: sarcástico ou inocente? foi um título que escolhi há algum tempo, quando ainda nem bem sabia ao certo sobre o que iria escrever para este Trabalho de Conclusão de Curso, o famoso e famigerado: TCC. Assim que me defini pelo tema, tratei de fazer uma varredura pelas teorias e teóricos que escreveram ou teriam escrito sobre o riso na infância.
Para a minha surpresa, em todos os teóricos lidos, desde Aristóteles a Platão, de Bakhtin a Freud, de Ritter a Bataille, até chegar a Bergson, constatei que nenhum deles dedicou-se exclusivamente a questão do riso e do risível na infância – mesmo porque é sabido que este não é um fenômeno que se possa atribuir exclusivamente aos pequenos.
O que eu faria então da minha curiosidade epistemológica? Ao compartilhar tal angústia com o meu orientador, o professor Roberto Paiva, ele pediu-me para escolher um dos teóricos lidos e escrevesse um artigo traçando um paralelo entre a teoria escolhida e a minha prática de recitador de poesias. Obviamente, o questionei se não poderia parecer pretensão de minha parte falar do próprio umbigo. No que o Paiva discordou e viu nisto um bom elemento para que eu evoluísse nessa minha investigação sobre o riso na infância.
Portanto, abordar a natureza do riso infantil: sarcástico ou inocente? passou a ser o desafio ao qual vou tentar transpor ao longo deste artigo. Para tanto, assumirei como referencial teórico e fio condutor desta análise, o estudo O Riso – ensaio sobre a significação da comicidade, livro de Henri Bergson.
O RECITADORAntes de adentrar ao tema propriamente dito, faz-se necessário algumas explicações preliminares. Desde 1997, me apresento em escolas das redes pública e particular de ensino recitando poesias para crianças, sobretudo, nas escolas do Estado de São Paulo.
Essa experiência foi-se revelando aos poucos bastante feliz e logo se criou – entre mim e as crianças – uma espécie de simbiose do prazer, uma coisa inexplicável num primeiro momento. O fato é que, toda vez, quando estou diante das minhas plateias infantis assoprando-lhes delícias poéticas parece que alguma coisa de extraordinário acontece. Sinceramente, nunca imaginei que as poesias e os ditos espirituosos que eu profiro iriam construir nas crianças os fios que as ligam ao enigmático tecido do riso.
No começo, achava que a criançada me recebia bem porque gostava de ser provocada por mim. Depois, fui observando outras coisas. Por exemplo, notei que a minha ação não se limitava – única e exclusivamente – a uma simples provocação. Tinha algo a mais, a que aqui vou chamar de convocação.
Mas para a quê eu as convocaria? Certamente, pelo prazer de vê-las compartilhando comigo dessa experiência única e substancial que é a alegria de poder dar forma ao barro sugerido pelo mundo maravilhoso dos livros e da leitura. Aliás, eis a ponte que primeiro nos uniu.
Nestes encontros, o meu objetivo sempre fora o de vivenciar com as crianças palavras boas de ouvir e dizer, sem nenhuma preocupação moralista e nem mesmo didática – mesmo por que sempre abominei o caráter utilitarista que se dá às coisas. Às crianças tal prática revela-se chata, desestimulante, e, portanto, desnecessária.
A minha intervenção tem outra natureza. Despertá-las para os mistérios e as alegrias das falas adormecidas, eis a que me proponho. Afinal, nunca desejei nada a mais do que isto. Apenas isto. Todavia, mal sabia que o riso seria fundamental neste meu ofício de recitador de poesias.
Walter Benjamin em seu magnífico texto O narrador já nos alertava sobre a extinção da comunidade dos ouvintes:
(...) e desaparece a comunidade dos ouvintes. Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas. Ela se perde porque ninguém mais fia e tece quando ouve a história. Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido”. (BENJAMIN: 2003, p. 205)Ora, o que isto tem a ver com a natureza do riso infantil? Eu achava que não tinha nada a ver, mas, aos poucos fui descobrindo – por exemplo –, que só consigo obter a audiência das crianças quando num primeiro momento, causo nelas uma quebra da continuidade da vida e quando isto acontece sempre as ganho para me ouvirem, primeiro pelo riso.
No meu trabalho, o riso funciona como uma espécie de distração. Com a prática, percebi que quando as pessoas riem, elas se desobrigam das chateações do mundo sério. É como se eu as desarmasse e lhes oferecesse, pelo menos, por alguns minutos, um caminho mais leve.
Chamo este momento de quebra-gelos no sentido mais dicionarizado possível como está no Michaelis: Navio apropriado para abrir caminho nos mares gelados. Sinto que quando lhes provoco o riso, ao abrir caminhos nos mares gelados, sucede nas crianças, o tal do esquecimento de si mesmas.
É neste sentido que o riso torna-se forte aliado, pois ele opera nos meus ouvintes uma distensão física capaz de desviá-los – pelo menos, por alguns instantes – das obrigações do mundo sério.
Vou citar alguns quebra-gelos praticados por mim durante os meus encontros com as crianças. Como veremos no poema Aeróbica publicado nos meus livros O Pinto Pelado no Reino dos Trava-línguas e Poesia Futebol Clube e outros poemas (Editora Formato):
Em cima
Embaixo
A ponte
O riacho
Embaixo
Em cima
A ponte
A piscina.Neste caso, a graça não está apenas no poema recitado, mas na maneira como ele é recitado. Ao chamar algumas pessoas para recitarmos juntos, este “quebra-gelo” redunda o riso pelo local. E as crianças riem porque a sua atenção foi desviada para o corpo dos meus convidados, que chegam até a rebolar enquanto recitam e se esforçam numa coreografia proposta por mim. Então, para mim, o riso das crianças é uma espécie de permissão; é como se elas me dissessem: “Agora você tem licença para brincar com a gente”.
Mas voltando ao texto do Benjamin, penso que este esquecimento – ao qual me referi nos parágrafos anteriores – encontra na esfera do riso infantil forte argumento no sentido de tentarmos entender a sua natureza.
Só agora entendo porque as crianças quando participam de uma apresentação minha, não estão ali para se comoverem comigo – e aqui faço alusão à epígrafe deste artigo – para dizer que talvez a minha figura deva desencadear nelas outro estado d’alma. E se elas são capazes de se esquecerem de si mesmas, isto significa que, a partir deste momento, estarão prontas para experimentar o voo livre, para o qual eu as convoco.
Penso que o riso infantil faz morada neste voo despretensioso, e o melhor de tudo, não há a obrigatoriedade de nenhum tipo de brevê. Ao compartilharem com alegria dos meus gracejos e ditos espirituosos, para mim isto é um sinal de que as crianças estão propensas a vivenciar – sem qualquer tipo de constrangimentos – o esquecimento de si mesmas. E se elas se esquecem de si mesmas, é por que a figura do recitador que represento, aos seus olhos adquiriu a careta do palhaço, do cômico.
Mas por que as crianças riem quando participam dos meus recitais? O que as faz rir? Do quê elas riem? Enfim, qual seria a natureza deste riso? Quando comecei a recitar poesias, o meu objetivo sempre fora o de me tornar um recitador “sério” e “respeitado”. Todavia, desviei-me deste caminho e algumas ações corroboraram para isso. Mal sabia que os jogos de palavras – utilizados por mim – acabariam por destampar-lhes a panela do riso.
Mas justo o riso? Por falar nisto, vou me atrever a uma pequena digressão. O riso viveu o seu apogeu na Alta Idade Média e no Renascimento. Neste período, a gargalhada rolava solta e o riso chegou até mesmo ser associado ao diabólico, o que gerou uma grande ofensiva político-religiosa do sério representado pela Igreja. Nesta esteira, entre os séculos XVI e XVIII, o riso desapareceu. Inclusive foi decretada a morte do bobo da corte. O máximo que se permitia era um palhaço em casa.
Não por acaso, há um livro que se perdeu da Arte Poética de Aristóteles, justamente o que tratava da comédia. Tal “sumiço” motivou o escritor italiano, Umberto Eco, a escrever o romance O nome da rosa.
Mas do que a Igreja teria medo? Certamente, temia que se o riso-feliz se espalhasse, poderia contagiar, deformar e até mesmo revelar as insuficiências da vida séria preconizada pelos católicos da época. Então, o riso era um sinal de diversão, de felicidade, de plenitude – tudo o que a Igreja não desejava naquele momento. Por esta razão, a Igreja decretou a sua extinção.
Foi assim que neste período o riso adquiriu o status das coisas abomináveis, porque seu caráter demolidor podia vencer entre outras coisas, o medo e as próprias idiossincrasias da Igreja. Obviamente que o riso tem várias facetas, mas neste artigo não é o meu objetivo investigar seu caráter polissêmico, mesmo porque o que me interessa é a sua natureza no universo infantil.
Depois desta pequena digressão, resta-me dizer como me tornei um escritor para as crianças. Ao dizer isto bem sei que no fundo, bem lá no fundo, ninguém tem como ambição que os seus textos se destinem a um público ou a outro.
Os meus escritos – naturalmente – aterrissaram sobre o solo fértil da Infância. Foi assim que me tornei um autor de “livrinhos”. Assim mesmo no diminutivo – autor de coisas sem importâncias, um reles fazedor de poesias para os novos leitores.
E a necessidade de achar qual seria o meu lugar neste mundo sério, acabou por me levar a identificar no público infantil, que esta seria minha zona de conforto na vida. Portanto faço das palavras do poeta Cacaso, as minhas:
Lar doce lar
“Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio”.
Sim, quando estou me apresentando ou escrevendo para as crianças sinto-me felizmente exilado das chatices provenientes do mundo sério. Então, não hesito – nem sequer um só momento – em preparar aos meus ouvintes e leitores o melhor dos presentes que eu posso lhes ofertar. Falo em ofertar no sentido de presentear como aprendi com o saudoso professor Flávio Di Giorgi que me disse certa vez: “o poeta é aquele que prepara um presente para a humanidade”.
E para presentear as crianças sempre trago num cantinho da memória, alguns guardados espirituosos e afetuosos que vivem doidinhos para virarem graça no terreno da Infância. Sem vacilar, os distribuo no bojo alegre da existência. É um presente. Vários fatores contribuem neste sentido; desde uma simples simulação de uma respiração do tipo apaixonada – que costumo fazer –; ou quando recito um delicioso trocadilho, como este da escritora Eva Furnari:
Você troca
um tutu de feijão
por um tatu de calção?
Ou uma simples adivinha:
Qual a cidade brasileira
em que se bebe mais água?
Resposta: Bebedouro!
Ou, então, o desconcerto saboroso provocado por um poema de Sérgio Capparelli:
Meu pai é forte
Tão forte
Ele puxa o Pólo Sul
E amarra no Pólo NorteOu essa trova popular:
O meu pai chama-se Caco
A minha mãe Caca Maria
Lá em caso é tudo caco
E eu sou filho da cacaria. Pronto, o riso está deflagrado entre os pequenos e assim que acabo de recitar um poema, ouço os pedidos do tipo: “Ah, recita de novo” ou “conta de novo”. O recitar, o contar de novo vem para confirmar o texto de Benjamin. Esquecimento amplo, geral e irrestrito.
Os fios do riso infantil foram tecidos e embevecidos na mais pura alegria. Quando isso acontece temos aí um sinal de que, o mundo se reinventa pelo avesso e se é um mundo às avessas, este mundo vai romper com a continuidade das coisas vivas. Teremos aqui o mecânico sobrepondo-se ao vivo; é a comicidade que vem para nos corrigir.
BERGSON: A INVENÇÃO DO CÔMICO
Obviamente que tudo o que escrevi até agora só poderia desaguar nos estudos que Bergson realizou sobre a comicidade. Segundo ele, há várias possibilidades para a invenção do cômico, que nada mais é do que o mecânico aplicado ao vivo. Logo identifico nisto uma certa estranheza:
O mecanismo rígido que surpreendemos vez por outra, como um intruso, na viva continuidade das coisas humanas, tem para nós um interesse particular, por ser como uma distração da vida. (BERGSON, 2007: 64)
Parece-me que neste ponto as crianças estão mais atentas à vida do que os homens na sua seriedade. Quando elas riem dos meus gracejos talvez seja por que identifiquem em mim esta “distração” da vida e, por tal razão, passam a me assemelhar a uma coisa. Sobre isto, vejamos o que Bergson diz:
A comicidade é esse lado da pessoa pelo qual ela se assemelha a uma coisa, aspecto dos acontecimentos humanos que em virtude de sua rigidez de um tipo particular, imita o mecanismo puro e simples, o automatismo, enfim o movimento sem a vida . (BERGSON, 2007: 64-65)E por que isto ocorre? Talvez por que quando me reporto a elas é como se aquele um que sou eu – não fosse mais eu. Vou tentar explicar: também me permito o esquecimento. No exato momento em que estou diante das crianças, coloco o meu corpo a serviço daquilo que desejo comunicar sem me render aos filtros censores da razão séria.
De acordo com Bergson (2007), dentre outras coisas, o riso nos corrige já que a vida não se repete jamais, ela é um processo contínuo e essa continuidade só é quebrada pelo riso. Quando faço alusão à vida estou falando de pulsação no sentido bergsoniano do termo; daquilo que está em constante mudança.
Sabendo disso, sempre tenho à mente algum trocadilho ou poesias de outros autores que também convocam as crianças a pisarem – sem medo – sobre uma atmosfera mais espirituosa. Um deles é o Francisco Marques (Chico dos Bonecos), de quem recolhi esse brinquedo invisível:
A lata e as Sete Notas
Todo caso começa por acaso.
Este, por acaso,
começa na sala de aula.
Miro pede um apontador emprestado
para Dora.
Dora empresta e dá um sorriso.
Dora pede uma borracha emprestada
para Miro.
Miro empresta
E dá um sorriso.
Bate o sino!
Estojo, caderno, livro...
Tudo na mochila!
Pela calçada,
lado a lado,
os dois caminham em silêncio.
Em silêncio,
Vão chutando uma lata velha.
A lata, coitada,
Vira bola, mola, pula e rola.
Até parece que a lata cantarola:
“Miro e Dora! Miro e Dora! Miro e Dora!” (MARQUES, 2000: 33)
Bergson salienta que uma combinação de circunstâncias também tem em si um tipo de comicidade como a identificada neste poema. O mesmo narra uma cena cotidiana, a qual não teria nada de comicidade. Mas a repetição deste mesmo acontecimento levará os leitores ou os ouvintes a rirem da situação vivida por Miro e Dora. E do que ririam? Certamente, da extraordinária “coincidência” do empréstimo:
Imagine-se então uma série de acontecimentos imaginários que transmita suficiente ilusão de vida, supondo-se, no meio dessa série que progride, uma mesma cena a reproduzir-se, seja entre as mesmas personagens, seja entre personagens diferentes: haverá também uma coincidência, porém mais extraordinária. (BERGSON, 2007: 67)
Mas por que a coincidência torna-se risível neste poema do Chico dos Bonecos, quando o objetivo do poeta certamente fora o de comover aos seus leitores? Talvez por que ocorra – no simples ato do empréstimo de uma borracha ou um apontador – um desvio que os levará a outros estados d’alma. E este desvio é o riso, um gesto social que corrige a distração de Miro e Dora e dos acontecimentos.
De acordo com Bergson (2007), o riso é uma forma de correção e toda sociedade tenta inventar o seu modo de correção e de abrandamento da rigidez. Rimos também todas as vezes que a nossa atenção é desviada para o físico de uma pessoa quando o que estava em questão era a moral.
Notamos este desvio no poema Aeróbica, já citado neste artigo. Então, de quê as crianças riem mesmo? Neste texto recitado de maneira performática, a coreografia cumpre o papel de desviar a atenção para o mecânico da cena. O texto em si, se fosse apenas recitado, não causaria nenhum tipo de sentimento nos espectadores, no entanto a partir do momento em que as pessoas são convidadas a participarem de uma coreografia, imediatamente elas são coisificadas pela platei e o riso toma a todos porque os olhares foram desviados para o físico dos meus convidados.
Portanto, não são apenas os gracejos e os ditos espirituosos que destampam nas crianças a panela do riso. Creio que a minha figura em cena também se torna cômica aos seus olhinhos, pois com o meu corpo acabo fazendo caricaturas.
O exemplo disso é outro poema meu: A mulher torta. Ao recitá-lo, contorço-me todo e, além disso, dou à minha voz um tom caricatural. Obviamente, que o desfecho do poema causa-lhes susto, mas susto este que vem acompanhado de gargalhadas.
Eu vi uma coisa
Mexeu na porta
Era uma sombra
De uma mulher torta.
Senti um arrepio
Um frio, sei lá
Um vento me invadiu
Tremi de verdade
E não é lorota não
Eu vi uma coisa
Mexeu na porta
Era uma sombra
De uma mulher torta.Para constatar o que Bergson escreveu sobre o arranjo mecânico, acrescentei à minha apresentação um grilo feito com uma das partes de um pregador de roupas, o qual pressionado sobre o tampo de uma mesa, alguns segundos depois, assim que o arame perde a pressão, o mesmo é impulsionado para o alto. A cada salto do grilo as crianças destrambelham a rir.
As crianças riem porque nelas o riso está associado a este arranjo mecânico, oriundo da distração da vida. E se o riso é uma distração que tem como caráter nos corrigir; isto nos leva a afirmar que, sem essa distração não enxergaríamos ao outro nem a nós mesmos. Conforme Bergson (2007) se estivéssemos mais atentos à vida não precisaríamos produzir molas e nem de cordinhas com o objetivo de regularmos as nossas imperfeições individuais ou coletivas.
Desta forma, imagino que as crianças estão totalmente livres das privações e das aniquilações impostas pelo mundo sério. Diferentemente dos adultos, os pequenos não sentem vergonha em se assemelhar a uma coisa ou falar com todas as letras o que lhes vêm à cabeça.
As crianças simplesmente falam sem amarras porque – felizmente – não usam os filtros censores, dos quais os adultos se servem a exaustão. As crianças não se deixam entregar ao automatismo de uma vida sem graça.
Sobre isso Freud disse que o riso é o não-sério, o não-lugar da linguagem. Seria então o lugar onde as palavras não significam as coisas e “jogam” entre si como nos jogos de infância. (ALBERTI, 2002:17). Ou seja, o riso é uma ausência de sentido que torna esse lugar inacessível ao pensamento.
Ora, se o riso é o não-lugar da linguagem, o que nos levaria a rir de situações cotidianas, ou até mesmo inusitadas como aquela emblemática cena do filme A Guerra do Fogo (1980), de Jean-Jacques Annaud? Quando alguns hominídeos descansam sobre os galhos de uma árvore e, um deles atira uma pedra sobre a cabeça do outro que está num galho abaixo. Aquele que atira a pedra começa a rir, logo o riso se espalha e até mesmo aquele que fora atingido pela pedra – quando passa a mão sobre a cabeça e vê o sangue lhe escorrendo, cai na gargalhada. Quantas vezes nós repetirmos esta cena mais iremos nos rir dela. Mais uma vez aqui temos o mecânico sobreposto ao vivo.
Mas o que tal cena tem a ver com o riso infantil? Penso que tudo. O riso destes hominídeos seria sarcástico ou inocente? Segundo Bergson (2007) a gente só ri de uma coisa com a qual não nos comovemos. Para o estudioso francês, a emoção é inimiga do riso. Se você se coloca no lugar do outro jamais vai rir dele. Poderíamos simplesmente dizer que rimos desses mecanismos de repetição contidos no riso, porque podemos haurir desta cena a quebra da continuidade, a continuidade é a vida que se rendeu ao mecânico.
Por outro lado, Bergson ainda cita Hebert Spencer: o riso seria o indício de um esforço que cai no vazio. (HEBERT SPENCER, apud BERGSON, 2007: 63). Então, o riso daqueles hominídeos seria apenas um esforço que caiu no vazio e hilário da cena narrada. Não há explicação plausível para a sua natureza. E nem precisa.
Se o riso é um esforço que cai no vazio, podemos identificá-lo a um botão que nos conecta ao nada e o nada é este lugar aonde o pensamento jamais chega. Conforme Ritter, sua positivação é clara: o nada ao qual o riso nos dá acesso encerra uma verdade infinita e profunda, em oposição ao mundo racional e finito da ordem estabelecida. (RITTER JOACHIM, apud ALBERTI, 2002:12).
Talvez por isso, as crianças são propensas ao riso e ao cômico por que ainda não foram contaminadas pela razão “séria”, pelos “focinhos de uma seriedade bestial”. Elas riem porque riem e riem por que são capazes de caminhar pela contramão que as levam ao nada, à desobrigação de pensar.
Como já vimos, assim que as crianças acionam o botão do riso lhes acontece um tipo de esquecimento, mas não um esquecimento qualquer, é um esquecimento arrebatador – elas são do riso que as toma e pronto. Mais do que ninguém – as crianças e os poetas – conhecem muito bem qual é a senha que nos acessa ao nada.
Sempre digo aos pais e professores que, quando estou em cena jogando com crianças e adultos, sou apenas um homem em estado de infância comungando palavras empoeiradas pela pressa dos dias e entorpecidas por todo tipo de pirotecnias proporcionadas pelos tempos atuais. Por esta razão, não tenho medo de me expor ao ridículo.
Certa vez, o poeta Chico dos Bonecos – um grande desenrolador de brincadeiras e encantador de pessoas – disse-me que assim que acabou uma apresentação sua, uma professora – toda constrangida – perguntou-lhe se ele não tinha vergonha de fazer papel de bobo perante o seu público. Ora, o Chico, assim como as crianças também conhece os atalhos que nos levam ao nada.
Os poetas, certamente, adoram a ideia do nada, mas um deles, o mato-grossense Manoel de Barros, é mestre neste assunto e é dele que recolhi essa outra belezura:
O poeta é o único ente
que lambe palavras
e depois se alucina. E como não se alucinar com elas. Claro que alguma coisa em mim, talvez o meu jeito de recitar as poesias cause um “curto-circuito” nas crianças acionando-lhes – automaticamente – o enigmático tecido do riso. E elas sempre querem mais, mais e mais.
Depois de mais de 40 anos de idade, me descobri engraçado, cômico! Mas tal acidente, como já disse, era tudo o que eu jamais desejara, por saber que a nossa sociedade – de certa maneira – desconfia de quem ri; de quem brinca. Quando externo este lamento recordo-me do que Konstantinos Kaváfis escreveu sobre o sério na vida, a tradução é de José Paulo Paes:
Sei que para vencer na vida e infundir respeito, tem-se de ser sério. Todavia, não só me é difícil afetar seriedade como não a tenho em alta conta. Vou explicar-me melhor. Nas coisas sérias, agrada-me a seriedade por meia hora, ou mesmo uma, duas, três horas por dia. Às vezes, até um dia inteiro de seriedade. No restante, agradam-me os ditos espirituosos, os gracejos, a ironia e os embustes (humbugging) inteligentes. Mas não são convenientes. Perturbam os negócios. Pois as mais das vezes tenho de avir-me com pessoas ignorantes e néscias. Elas são sempre sérias. Focinhos de uma seriedade bestial: como gracejar com elas se não compreendem coisa alguma? Seus focinhos sérios são o reflexo disso. Tudo é problema e dificuldade para a sua ignorância e bestialidade porque, como nos bois e nos carneiros (os animais têm fisionomias tão sérias), a seriedade se difunde pelos seus traços fisionômicos. O homem bem-humorado é em geral menos-prezado, não merece maior consideração, não inspira muita confiança. Daí que eu me empenhe em mostrar aos outros uma aparência séria. Descobri que isso me facilita grandemente os negócios. Por dentro, porém, estou rindo e me divertindo à larga. (KAVÁFIS, 1998: 49-50) De fato, um homem que ri tende a ser menos-prezado. O riso atrapalha os negócios. Mas fazer o quê? Já tinha vestido o “boné do bufão”, o “chapéu do bobo” ou a “careta do palhaço” – expressões estas cunhadas por filósofos como Joachin Ritter e Georges Bataille. Quando o meu objetivo sempre fora o de apenas vivenciar com as crianças a alegria de jogar com as palavras. Apenas isto.
Sinceramente, volto a dizer, não sei se a poesia que eu escrevo e recito para os pequenos constrói uma ponte com o cômico, mas ao me utilizar de alguns recursos como os trocadilhos isso se tornou risível para as crianças. Os trocadilhos geram aquilo a que Aristóteles chamou de fator surpresa.
Aristóteles ainda introduz na reflexão sobre o riso o recurso mais destacado nas teorias posteriores: o fator surpresa. Para ele, a palavra modificada pela troca de letra produz um efeito diferente do esperado. (ARISTÓTELES apud VERENA ALBERTI, 2002:54)
A poesia enseja um efeito diferente do esperado que é o acaso. E o acaso é responsável pela surpresa no espectador seja ele: criança ou adulto. O poeta José Paulo Paes nos ensinou também que a poesia que não tiver surpresa não é poesia, é papo-furado. Ora, o “fator-surpresa” faz rir, sim. E o riso gera o prazer.
De acordo com Freud o prazer decorre da possibilidade de pensar sem as obrigações da educação intelectual. (FREUD apud VERENA ALBERTI, 2002: 17) Por essa razão, os jogos de palavras também nos causam prazer porque nos dispensam do esforço necessário à utilização “séria” das palavras.
Um dia o Joaquim quim-quim
Levantou-se assim sim-sim
Chamou o Serafim fim-fim
Ajeitou o cabelo lô-lô
E falou:
– Eu tô bem bem-bem
E ficarei melhor
Se você cê-cê
Me der uma flor flô-flô
Como prova do nosso amor mô-mô
E fim fim-fim.Creio que quando recito este outro poeminha meu, as crianças devam achar graça porque nele me desobrigo da rigidez da língua e brinco com as palavras para criar o fator surpresa. Elas riem deste desvio provocado por mim. Afinal, ninguém fala e nem escreve desta maneira. O mesmo acontece neste outro texto meu:
O Aldo passou um pito geral
E deixou o Geraldo desconjuntado.
O Geraldo olhou de lado, e pensou:
– Este Aldo é um coitAldo!
Mas mico geral
Quem pagou foi o Aldo
Que saiu dali atordoAldo!CONCLUSÃO
Chego ao fim deste artigo convicto de que os ditos espirituosos e os gracejos sempre renderam bons risos com a meninada. Todavia, investigar a natureza do riso na infância pareceu-me uma tarefa perfeitamente possível de ser investigada, graças à minha prática de recitador de poesias junto a este público.
Acredito que os adultos devam saber que é por meio das brincadeiras que se dizem as grandes verdades – coisa que me parece, as crianças parecem não terem a menor dúvida.
Os adultos se policiam o tempo todo, as crianças passam longe disso. Enquanto os adultos vivem às turras com as interdições vigentes decorrentes do sistema de valores de uma sociedade que os oprime o tempo todo, as crianças desconhecem essas interdições.
Portanto, é como se as crianças soubessem de cor e salteado a “teoria do alívio” de Freud, a qual reza que o riso abre os canais para expressarmos impulsos socialmente proibidos ou reprimidos. Penso que intuitivamente as crianças quando riem nos ensinam quais são os adágios de uma vida sem máscaras, onde tudo deve ser inteiro e não pela metade.
Para finalizar, resta-me dizer que a questão primeira deste meu artigo sobre a natureza do riso infantil: sarcástico ou inocente?, leva-me a concluir que, o riso infantil nem é sarcástico nem ingênuo, ele tem uma natureza outra; ele corre solto e está associado à liberdade porque não se prende a nenhum filtro censor.
...