O Vadola foi comprar ovos para a mistura do almoço. Com o dinheiro que a sua mãe lhe dera comprou uma dúzia e ainda sobraram uns trocadinhos, com os quais o menino passou no bazar da dona Anastácia e comprou três bolinhas de gude: uma azul, uma vermelha e uma branca com detalhes verdes.
As bolinhas, o Vadola colocou no bolso do short xadrezinho de tergal, o saquinho com a dúzia de ovos, segurou com todo o cuidado, como se estivesse abraçando algo de muito valioso.
Nisso, um menino − muito do mequetrefe − assim que o viu gritou:
− E esses ovos aí, Vadola, são de ouro?! − disse isso e riu o intrometido.
Claro que o Vadola fez de conta que as abobrinhas proferidas por aquele tagarela não se dirigiam a ele, e seguiu em frente.
Todavia, no meio do caminho de volta para casa, o Vadola encontrou uns colegas que jogavam bolinha de gude na calçada próxima da casa do Tonico e foi jogar também. − Uma partidinha só não ia fazer mal algum − ele pensou.
Acomodou o saquinho com a dúzia de ovos sobre o muro, e assim que se certificou que os mesmos estavam seguros, sacou do bolso daquele short xadrezinho de tergal, uma linda bolinha de gude branca com detalhes verdes e se pôs a jogar.
De repente: catapimba, prequeté, tibuf! Ouviu-se aquele estrondo. Quando um dos garotos viu o saquinho marrom todo espatifado no chão (com aquela cacaria), gritou alarmado:
− Vixe, Vadola! − Não são os ovos da sua mãe!?
O Vadola ao ver a meleca de cascas, claras e gemas pelo chão quase teve um treco. Sua feição − de risonha e corada − transformou-se em chorosa e empalidecida. E o Vadola se desesperou, e o Vadola ficou agitado, e o Vadola coçou freneticamente a cabeça, quase que arrancando-lhes os próprios cabelos...
Se o Vadola chorou? Chorou e muuuito! Primeiro, foi um chorinho esmilinguido. Depois, um choro − que mais parecia um motor de motocicleta − engasgado. Depois, um choro daqueles de limpar os pulmões. Deu até para ver que o desenho e os contornos de suas gengivas e as inflamadas amídalas. Bicho feio!
Quando, enfim, o Vadola conseguiu se acalmar, disse desesperado:
− O que é que eu vou fazer? − A minha mãe vai me matar! E tornou a abrir o bocão.
Os outros meninos, ao vê-lo naquele estado, tiveram pena dele, mas nada podiam fazer. O Delei, que sempre carregava uns trocos no bolso, então falou:
− Vadola − disse com firmeza − toma esse dinheiro aqui e compre os ovos da sua mãe − vai lá, vai!
− Mas... − Mas...
O Vadola chegou a gaguejar − de tão feliz que ficou − só faltou dar um beijo de agradecimento no Delei. Enquanto limpava com o dedo as trilhas de lágrimas que escorriam-lhes pelo rosto, ele olhou bem no olho do amigo e lhe disse:
− Puxa Delei, você salvou a minha vida − e continuou − nunca mais vou me esquecer dessa sua atitude!
Imediatamente enfiou a mão no bolso do short xadrezinho de tergal e sacou duas bolinhas de gude novinhas em folha: uma vermelha e a outra azul e ofertou-as ao amigo como prova de sua gratidão e eterna amizade.
Mas aí, a mãe do Vadola, uma nordestina parruda, saiu no portão da casa dela e chamou o filho:
− Vadola, ô, menino mole duma figa, cadê os meus ovos?!
O Vadola, refeito do susto, estufou o peito e assim que se aproximou da mãe, disse-lhe triunfalmente:
− Demorou um pouquinho só porque as galinhas ainda estavam chocando os ovinhos. Mas aqui estão eles, sãos e salvos.
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