16/12/2010
Mudança de casa
http://caradepavio.wordpress.com/
A GENTE SE ENCONTRA NO NOVO ENDEREÇO.
atenciosamente,
Paulo Netho
Conspiração
Senti um espasmo, um arroubo. A cidade vazia. Como pode? Algo impensável nesses dias. Só sendo sonho. Que coisa mais sem sentido. Experimentei um passo e mais outro no espantoso silêncio. Apalpei-me, dei saltos para certificar-me se a situação era real ou não. Nem um sinal. Nada. Cadê Baco? Cadê os bêbados da praça, os atores falastrões, os heróis histriônicos, as putas tristes, as bichas alegres, os meninos de aluguel, os filhos da fumaça, os senhores do esquecimento. Cadê essa corja! Ninguém pra tomar um drinque e levar um lero sem futuro. Ninguém. Sequer um vira-lata de olhar pidão. Seria Sábado de Aleluia? Domingo de Páscoa? Natal? Feriado? Virada de ano? Que coisa! A cidade petrificada em seu abandono. Cadê os fujões? Esses covardes. Isso não se faz. E esse vento frio, inverno fora de época? A cidade não foi destruída por nenhum terremoto. Intacta e vazia. Conspiraçãoooo... Só pode ser isso. Chega de brincadeira, quero saber: cadê a vida que tava aqui?
...
13/12/2010
Minha vila
Felizes são as pessoas da minha vila que sabem viver a vida. Quanta alegria, meu Pai, quanta alegria! Os botecos ficam lotados de homens e mulheres munidos com as suas latinhas de cerva, tudo pra não perderem a cadência do samba. Na minha vila é sempre essa celebração. O espírito humano acomoda evangélicos e católicos; iguais e diferentes; pagodeiros e sertanejos; gente com dente e gente sem dente. Isso sim que é viver. Na minha vila é lei. É proibido ser triste. Mulheres suadas com suas barriguinhas e barrigões de fora, que beleza. Os marmanjos mandam ver no pagode e no goró. Canela grossa, canela fina. Gentes de muitas patentes numa epifania dos sentidos. Portugueses, paraibanos, mineiros, baianos. Céticos e ascetas. Mendigos e nóias. Na minha vila a vida pulsa e até o mais fastiento dos domingos vira uma farra.
...
11/12/2010
Uma paz súbita
Ainda a pouco estava a descascar alho na cozinha quando senti uma paz súbita. Foi como se o paizinho do céu estivesse me observando com as suas jabuticabas maduras sem me dizer sequer uma só palavra de carne e osso. O paizinho do céu usa palavras de vento ventado por passarinhos desavisados. Diga-se de passagem, vento benfazejo. Aí fiquei amando a esse simples ato. Por mim, a tarefa podia durar o tempo todo do mundo que nem ia me incomodar. Um a um, continuei a descascar aqueles dentes de alho roxo. Nem notei quando o paizinho do céu vestiu a calça cumprida da noite que já brilhava em estrelas. Quando dei por mim, a bacia tava cheinha até a boca de alho. Ih, quase me atrasei por causa disso. Resolvi então fazer macarrão ao alho e oléo para o meu amorzinho que devia estar - àquela hora - no sacolejo trepidante do trem e logo ia chegar.
...
08/12/2010
Ciranda de Cantigas
Ontem fizemos mais um ensaio para o show "Tudo junto e misturado" que o Grupo Ciranda de Cantigas vai fazer no próximo domingo no Sesc São José dos Campos. Mó astral trabalhar com essa molecada: Vinícius Bini, Renato Delírio, Ricardo Kabelo, sem contar na sintonia fina com o Salatiel Silva, parceiro de músicas e shows nesses 13 anos. Nada de showzinho para crianças, trata-se de um showzão com uma pegada heavy metal para as cantigas de roda, mas além disso o público de São José dos Campos vai ser convidado a cantar e a se divertir com as nossas provocações. ENTRADA FRANCA
O show começa às 16 horas e o endereço do Sesc é avenida Dr. Adhemar de Barros 999. Mais informações pelo telefone (12) 3904-2000
06/12/2010
TV Sentidos - Balaio de Dois
...
As figuras
...
04/12/2010
Azar da lagartixa
O relógio nem despertava mais. Ouvia no rádio todas as notícias, bem como, os passos na rua; as vozes na rua; os motores na rua; o despertar da rua. Jogou o rádio contra a parede. Azar da lagartixa. Ferida em cheio, despencou desgrenhada daquela branquidão descascada. Antes de finar-se, ainda mexeu o rabinho, a desafortunada.
...
03/12/2010
02/12/2010
Dentro do formigueiro
Você pensa que é fácil encarar essa feiúra? Definitivamente, lhe digo que não é. O que se foi – como o verbo mesmo sacramenta – é aquilo que já se foi, o que não volta mais. Não compreendo tamanha intolerância com a nova realidade como ela se nos apresenta. De fato estamos no olho do furacão dentro do formigueiro, acuados por gente, carros, poluição, descasos, violência, maledicências, proliferação de prédios e solidões, quilômetros e mais quilômetros de indiferença. Claro que isso nos enjoa, nos fere letalmente. Mas penso que não devemos nos entregar feitos uns cordeirinhos indefesos. Penso que o horror jamais poderá sucumbir a beleza da existência. Você me diz que sou um sonhador e coisa e tal. Não sei se sou isso. Talvez eu seja como você; alguém que procura uma saída, um porto seguro, vontade pra trocar de casca ou coragem pra enfrentar um dia cheio de possibilidades adormecidas.
...
28/11/2010
Sábado de sol
![]() |
| uma foto diferente |
![]() |
| Eu e o Mala cuidando do colesterol |
![]() |
| Paulo Netho e Netinho |
![]() | |||||||
| Márcia Rocha e Malatiel |
...
24/11/2010
08/11/2010
Patativas
O chão da alma dói. Não sabe explicar. Não sabe. Chove torrencialmente por dentro, onde os seus cachorros não param de uivar. Noite sem fim. Nem tudo o que parecia era e nem tudo o que era, eras.
Confuso.
Só se entende na confusão. Não sabe explicar. Não sabe. Do lado de dentro é com ele. Do lado de fora é com o mundo. O mundo ou o ignora ou tá de sacanagem. O mundo não para. Do lado de dentro caminha para as origens. Do lado de fora para as vertigens.
Um minuto de atenção.
A chuva amainou. Deu vez aos impertinentes soluços. Prantos entrecortados. Espasmo involuntário solidificado. Uma mãe aflita sem o seu bebê. O arfar do mar. Uma erupção vulcânica. Patativas, labaredas. Nenhuma lamparina.
Nada.
Não sabe explicar. Não sabe.
07/11/2010
Pelabílis
05/11/2010
Conversas fiadas
| Salatiel Silva e Paulo Netho em Conversas fiadas |
01/11/2010
Aquele palavrão
E logo no primeiro ano de escola, a Dona Cida, a minha professora, passou a me chamar de Feliciano, como que fazendo uma homenagem ao meu pai ou ao meu avô, sei lá. “Feliciano isso, Feliciano aquilo”.
Lição de de casa com a Dona Cida tinha outro nome: DEVER, uma obrigação à qual nós, os aluninhos, tínhamos que nos sujeitar sem sequer dar um pio.
Acontece que um dia, eu já sofria de poesia e de ócio, e a Dona Cida tava colocando o DEVER na lousa e quando ela terminou, notou que eu já havia guardado quase todo o meu material, só sobrara uma régua de madeira, de 30 centímetros.
Incotinente, a professora me questionou: “Feliciano, já copiou o DEVER?” Tremendo de medo disse-lhe que sim. A Dona Cida então pediu para ver o meu caderno, havia escrito apenas a fatídica, a impositiva palavra DEVER.
A mulher espumou de raiva e não teve dúvidas: pegou aquela régua de madeira, de 30 centímetros e deu na minha cabeça, mas o que mais doeu foi ouvi-la pronunciar aquele horripilante F E L I C I A A A A N O.
Mas eu perdôo a senhora, Dona Cida, perdôo mesmo, só acho que a senhora não precisava ter dito aquele palavrão, pra quê? Não bastava só a reguada.
...
30/10/2010
Balaio na estrada
*Aqui vai um agradecimento todo especial para os funcionários CCSP: Valéria, Denise, Elisa, Maria, Maria Helena e Cláudia pelo carinho como nos acolhem sempre.
...
29/10/2010
Balaio de Dois na área!
poesias, trocadilhos...
...
28/10/2010
Tô Só
Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá
de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?
E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar...
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?
nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.*
Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.
* Trovas de muito amor para um amado senhor - SP: Anhambi, 1959.






